Diego não conseguiu se concentrar muito no
enredo do filme, pois estava preocupado com Paulo. Será que o menino estava
bem? Havia feito as pazes com Agatha? Estaria dando trabalho para Vanessa?
Pensar nesta última hipótese o fiz rir internamente, porque conhecia o
irmãozinho o suficiente para saber que ele jamais aprontaria.
Estava quase no final do filme quando ele
sentiu a mão morna do marido segurar a sua e em resposta, entrelaçou os
próprios dedos nela, enquanto soltava um pequeno suspiro de satisfação, pois
eram aqueles pequenos gestos simples que o faziam perceber como o casamento
deles ainda estava firme.
Ao olhar de esguelha para o lado, Diego
notou a expressão vidrada no rosto de Joaquim enquanto assistia ao filme, com
os olhos arregalados e a boca um pouco aberta em total fascínio e por aquele
curto período de tempo o rosto do loiro abandonou aquele semblante triste com o
qual ele chegou.
Com os gritos horrorizados da protagonista
perguntando o que “fizeram com os olhos
dele?”* o filme chegou ao fim, as luzes se acenderam e por alguns segundos
os seis se entreolharam em silencio, como se estivessem digerindo aquele final
abrupto.
— Bom, que tal irmos jantar agora? —
sugeriu Darcy quebrando o silencio enquanto se levantava, sendo seguida de
perto pelos outros. O restaurante que escolheram ficava a apenas alguns metros
do cinema, por isso puderam ir a pé e conversando.
E durante o trajeto, Joaquim notou com
desconforto como muitas pessoas que passavam por eles encaravam Darcy sem
nenhum mínimo de sutileza, virando a cabeça para olhá-la de forma julgadora.
Mas para sua surpresa, a moça parecia não reconhecer o que estava acontecendo
ao redor dela e continuava conversando animada, o que fez com que o rapaz se
perguntasse como ela conseguia?
***
Já na casa de Vanessa, as crianças
assistiam um dvd de desenho animado enquanto ela preparava o jantar, enquanto
mantinha um ouvido na sala, para apartar qualquer briga que pudesse surgir,
mas, após aquele desentendimento inicial envolvendo a briga de almofadas,
parecia que eles tinham feito as pazes e isso a deixava aliviada e feliz de ver
a filha sorrindo de novo.
— Crianças, vão lavar as mãos e venham
jantar. — Vanessa chamou enquanto espiava pela porta da sala de estar vendo os
três sentados com o olhar fixo na tevê.
Ela observou as crianças saltarem do sofá
e seguirem para o pequeno banheiro no corredor, comportados e sem correr,
retornando para a cozinha alguns segundos depois e assim que se acomodaram nas
cadeiras, Vanessa serviu o jantar no prato para os três. Macarrão com
almondegas.
— A comida tá muito boa, dona mãe da
Agatha. — comentou Luís enquanto enrolava uma garfada de massa e em seguida
comia e o comentário fez Vanessa sorrir. Nenhum dos dois meninos a chamava pelo
nome, apenas de “mãe da Agatha”, o
que ela achava fofo.
— Obrigada, querido. Fico feliz que você
gostou. — ela viu a filha dar um pequeno sorriso enquanto comia e sentiu um
calor agradável no peito em resposta. Depois de ver a menina amuada por tantos
dias e do que Silas aprontou, deixando Agatha triste, aquele sorriso era uma
grande melhora.
— Vocês vão querer ver outro dvd quando
esse acabar? Depois mostre pra eles sua coleção de filmes, Agatha. — A menina
concordou com um meneio animado de cabeça e se forçou a engolir a comida para
falar em seguida.
— Pode deixar, mãe! Tem um que eu falei
pra eles que era muito legal. A gente pode assistir antes de dormir? — Vanessa
respondeu que sim, ainda tinham algumas horas sobrando e poderiam assistir
enquanto comiam a sobremesa.
— Eu fiz aquele bolo formigueiro que você
gosta, filha. E acho que os meninos vão gostar também. — ao ouvir aquilo, Paulo
se inclinou para perto da amiga e perguntou se havia formigas no bolo e em
resposta a menina riu divertida enquanto respondia que não.
— É só o nome, porque o granulado é que
parece formigas, mas é só bolo com chocolate. — Vanessa apoiou o queixo nas
mãos enquanto olhava com carinho para a filha. Ouvir aquele riso límpido e
alegre a fazia se sentir realizada como mãe.
— Entendi. Legal. — respondeu Paulo para
em seguida voltar a comer o macarrão. Ele estava feliz de ter feito as pazes
com a amiga e de poder passar algumas horas com ela e Luís.
***
Enquanto jantavam, discutiam sobre o filme
e Mayara observou o quanto o tópico “maternidade compulsória” pareceu gritar
para ela enquanto assistia o longa-metragem.
— Quero dizer, ficou meio obvio que ela
não estava muito confortável em ser mãe, independente de bom, de quem era o pai
da criança... — a mesa foi povoada por risinhos desconfortáveis em resposta ao
comentário que fazia alusão ao enredo sobrenatural do filme.
— Eu detestei como o marido dela
simplesmente a ofereceu como uma espécie de troca para obter sucesso na
carreira dele. Assim que ela informou da gravidez, ele não se deu nem ao
trabalho de esconder a repulsa! — complementou Darcy para em seguida tomar um
gole de suco.
— Fiquei sabendo que a atriz era
vegetariana*, mas naquela cena que a personagem come carne crua, ela foi
obrigada a comer de verdade! Já imaginou isso? Que nojo! — observou Letícia, que
também era vegetariana, causando uma surpresa geral na mesa.
— Fazia tempo que eu não ia ao cinema. Foi
bem divertido. — destacou Joaquim ao mesmo tempo em que empurrava um punhado de
comida de um lado para o outro do prato. Ultimamente não estava tendo muito
apetite e apesar de ter uma ideia do motivo, isso não o ajudava em nada.
— Sim, foi muito bom! A gente precisa sair
mais vezes. — Diego sorriu ao mesmo tempo em que corria o olhar pela mesa,
absorvendo as expressões de satisfação no rosto dos demais presentes enquanto
sugeria um brinde. Ele também havia optado por um suco.
— Um brinde, a esta noite maravilhosa! —
em resposta os outros ergueram suas taças em um gesto coletivo e enquanto
erguia a sua própria, Joaquim sentiu mais uma vez que a sensação de fazer parte
de um grupo de amigos era algo muito bom.
Eles ficaram mais algumas horas no
restaurante e quando chegou o momento de ir embora, Joaquim se preparava para
ir até o metrô, quando sentiu sua mão ser segurada com gentileza e ao olhar
para trás, encontrou Darcy que sorria gentil para ele.
— Aonde você vai fofinho? Eu te dou uma
carona até em casa. Vem. — se despediram dos outros com abraços e beijinhos no
rosto e então seguiram até o estacionamento onde a loira havia guardado o
carro.
***
Enquanto voltavam para casa, Diego pensava
no quanto foi bom sair com outros adultos. Eles não tinham muitos amigos e
agora que estavam criando Paulo, o círculo parecia ter encolhido ainda mais.
— Tá tudo bem? — Marcelo perguntou
enquanto olhava de soslaio para o marido e recebendo em resposta um pequeno
sorriso satisfeito.
— Tá sim, eu só ainda não me acostumei a
sair com outros adultos... É bobo, não? — Diego riu e franziu o nariz.
— Não acho bobo. É bom sair com pessoas da
nossa idade para se divertir. — as ruas estavam desertas naquela hora da noite,
com exceção de uns poucos gatos pingados que estavam indo para alguma boate.
— Eu só estou pensando se fiz bem de
deixar o Paulo na casa da Vanessa. Digo, claro que ela cuida muito bem das
crianças, mas as vezes eu sinto que ainda tem tanto trauma dentro dele e que
não vai passar tão cedo... — sentiu a mão morna de Marcelo segurar a sua e
experimentou uma sensação de paz completa que só o toque do marido conseguia
lhe dar.
— Ele está bem. Amanhã a tarde nós vamos
busca-lo e você já sabe né, ele vai implorar para ficar mais um pouco e brincar
com a Agatha. Não se preocupe, eu acho que já te disse isso mais vezes do que
consigo contar, mas você está criando ele bem. — declarou Marcelo enquanto
fazia uma curva suave com o carro.
— Nós estamos. Você tem me ajudado muito
nisso. — declarou Diego, aceitando que suas preocupações não eram reais o suficiente
para ocuparem tanto espaço em sua mente.
— Com certeza. E amanhã nós vamos buscar o
rapazinho. Agora, me diz uma coisa, você tá a fim de fazer algo mais... Físico hoje
a noite, já que estamos sozinhos em casa ou melhor deixar para outro dia? —
Indagou Marcelo quando estavam entrando com o carro na garagem da casa, ao que o
outro respondeu com um risinho sem graça e um murmúrio.
— Tou tão exausto que acho que não teria
ânimo para fazer nada. Desculpa... — Diego se sentia incomodado ao recusar a
sugestão do marido, afinal, também gostava de sexo e se sentia bem quando
ficavam íntimos, mas a carga de exaustão que ele vinha carregando do trabalho,
somado à criação de Paulo o tinham esgotado.
Percebendo o impacto negativo que havia
causado, Marcelo soltou o cinto de segurança e envolveu Diego em um abraço
terno, depositando um beijo no topo da cabeça dele enquanto murmurava: — Tá
tudo bem, a gente pode só dormir por hoje, precisamos recarregar as baterias. E
também, vamos ter outras chances no futuro, quando ambos estivermos animados.
Ao ouvir aquelas palavras, Diego soltou um
longo suspiro de alivio contra o peito firme de Marcelo e mais uma vez ele
agradeceu em silencio pelo marido ser o seu porto seguro em momentos de
dificuldade.
***
Darcy dirigia com suavidade, mas Joaquim
não conseguia deixar de pensar naquele momento em que várias pessoas viraram os
pescoços para encará-la de forma desconfortável e invasiva. Ele vinha simulando
na cabeça como comentar sobre a situação sem magoar a moça, que no momento lhe
contava sobre seu trabalho em uma grande empresa multinacional.
— Er, Darcy, eu queria perguntar uma coisa
pra você... Não precisa responder se for muito desconfortável... — ele sentiu o
olhar dela por alguns segundos e então a ouviu dizer: — Claro, fofinho, pode
perguntar.
— É que, quando a gente saiu do cinema e
estávamos indo para o restaurante, eu notei que algumas pessoas ficavam... Te
encarando de uma forma meio rude, mas também percebi que você não se abalou com
isso, como você consegue... Ser assim tão forte e ignorar esse tipo de coisa? —
Me desculpa se eu estou sendo inconveniente. — complementou logo em seguida.
Darcy esboçou um pequeno sorriso e após
tamborilar de leve os dedos no volante, respondeu em seu tom animado de voz.
— Ah fofinho, quando você
faz parte de uma minoria marginalizada, só existem dois caminhos: ou aprende a
passar por cima desse povo e ignorá-los ou é atropelada por eles. Depois de
tantos anos sofrendo com a segunda opção, enfim eu aprendi a me blindar
emocionalmente. Claro que não foi uma coisa que aconteceu da noite para o dia,
mas aprendi por experiência própria que é preciso criar uma casca grossa quando
se sai na rua, ainda mais sendo uma grande gostosa como é o meu caso. — Joaquim
não conseguiu evitar de sorrir ao ouvir o comentário da amiga, porque tinha de
concordar, Darcy era mesmo uma “grande
gostosa”.
— Obrigado por me
responder. — murmurou o rapaz ainda meio sem graça, se surpreendendo ao sentir
a mão morna de Darcy segurar a sua por alguns segundos enquanto ela respondia.
— Está tudo bem, fofinho.
Você não fez nenhuma pergunta inconveniente. Agora me fala, como estão os
preparativos pro grande dia? — Joaquim
contou para a amiga sobre o que estava fazendo para o casamento e as reações
animadas dela o fizeram se sentir querido.
***
O suspiro profundo de Mayara não passou
despercebido por Letícia, que ao parar em um semáforo, perguntou se a namorada
queria passar a noite no apartamento dela.
— Quero dizer, você parece bem cansada e
eu pensei que talvez quisesse... Você sabe... — Mayara esboçou um pequeno
sorriso exausto enquanto piscava com lentidão e via a namorada corar meio desajeitada.
— Adoraria ficar na sua casa... Só vou
avisar para as minhas mães, você sabe como elas ficam quando eu estou fora, né?
— Letícia ouviu a conversa enquanto sorria com leveza, mordendo o lábio
inferior para conter um risinho ao ouvir a outra moça dizer “Sim mãe, está tudo bem, eu volto amanhã. Eu
não sou mais criança!”.
— Eu amo as minhas mães, mas as vezes...
Ugh! É meio sufocante! — desabafou Mayara ao mesmo tempo em que jogava o
celular com certa brusquidão dentro da bolsa e em resposta, Letícia comentou
num tom despretensioso.
— Você é a filha única delas... É
compreensível. — ao que a outra rebateu com “e você é a caçula, não é assim na sua família também?”
— Não desde que eu sai do armário. A mãe
da Talita, minha irmã mais velha me adora, tanto que ela disse que vai mandar a
menina pra cá de novo nas festas de fim de ano, mas meus pais, bom... Digamos
que eu não sou o maior orgulho da família. Eles fingem que eu não sou lésbica e
eu finjo que não me chateio com isso. Até agora tem funcionando... Eu acho.
— Eu... Não sabia que as coisas eram assim
com seus pais. Me desculpe por ter sido tão insensível. — sussurrou Mayara
enquanto puxava o rabo de cavalo sobre um dos ombros e começava a alisar o
cabelo em um gesto nervoso.
Estavam entrando no estacionamento do
prédio e assim que parou na sua vaga, Letícia segurou a mão da namorada,
impedindo-a de continuar com aquele comportamento compulsivo. Elas ficaram
alguns minutos ali, em silencio, apenas apreciando o calor morno das suas mãos
juntas, até que, inclinando-se com cuidado para perto da namorada, Letícia
deixou que seus lábios se tocassem em um beijo suave e gentil.
— Você não precisa se desculpar. Até
porque, suas mães meio que me adotaram e eu me sinto muito querida quando vou
lá na sua casa. E de quebra eu ainda tenho você na minha vida. — em resposta
Letícia sentiu um tapa leve ser dado em seu ombro enquanto ouvia a namorada rir
e sussurrar “sua boba”.
Em resposta ela sorriu e colocou uma mecha
de cabelos que havia se soltado do penteado de Mayara atrás da orelha da moça,
enquanto dizia num tom apaixonado.
— Você fica linda quando ri, sabia? — ao
que a moça respondeu com um tom de voz divertido.
— E você só descobriu isso agora? Vem,
vamos subir, eu preciso muito de um banho e uma boa noite de sono, abraçada em
você.
***
Quando Francisco enfim conseguiu voltar
para casa, já era quase meia-noite. A reunião demorou mais do que o previsto e
apesar de ele ter pensado em passar num restaurante tailandês que Joaquim
gostava, para fazer um agrado, quando chegou lá o lugar já tinha fechado.
Assim que abriu a porta do apartamento,
ele disse:
— Querido, cheguei! — mas foi recebido por
um cômodo no escuro e ao ir até o quarto deles, descobriu que o namorado já
tinha ido dormir.
Permaneceu alguns segundos observando
Joaquim respirando de forma tranquila sob as cobertas, até que resolveu trocar
de roupa e deitar ao lado dele e no momento em que sua cabeça tocou no
travesseiro, sentiu o outro se aninhar contra ele, ainda adormecido e em
resposta, Francisco abraçou o corpo morno do namorado, aspirando o aroma
delicado do shampoo que ele usava.
Ele queria perguntar como havia sido a ida
ao cinema e tudo o mais, mas poderia esperar até de manhã. Só de ter o loiro
ali ao seu lado já era o suficiente por hora.
***
No dia seguinte, depois do almoço, na casa
de Vanessa, as três crianças decidiram que queriam brincar de esconde-esconde.
Agatha iria contar, enquanto Paulo e Luís se esconderiam. A mãe da menina achou
uma boa ideia, mas pediu para que tomassem cuidado e não se enfiassem em nenhum
lugar difícil de entrar (porque também seria difícil de sair). Enquanto a moça
lavava a louça do almoço, ouvia a filha contar e os passinhos apressados dos
dois meninos pela sala e corredor.
Após uma breve busca, Paulo achou o
esconderijo perfeito. Um armário no fim do corredor onde a mãe de Agatha
guardava toalhas e produtos de limpeza. Ele entrou no espaço e fechou a porta
atrás de si com cuidado, para não fazer nenhum som. Agatha jamais o encontraria
ali.
Mas no momento em que se viu cercado pela
escuridão e silencio dentro do pequeno armário, um sentimento sufocante foi
tomando conta do menino e logo ele já não escutava mais a voz da menina
cantando os números.
E em questão de segundos ele se viu no
quarto onde encontrou sua mãe caída entre a cama e a mesinha de cabeceira. Ela
estava com os olhos arregalados e a boca escancarada em um grito sem som. E ele
era o único ali com ela. Não havia mais ninguém para ajudá-lo.
Conforme os minutos foram passando, Paulo
sentiu um aperto forte na garganta e o ar de seus pulmões sumindo aos poucos
enquanto tudo a sua volta ficava cada vez mais escuro e então, o menino desabou
no chão do pequeno armário, atormentado pela lembrança do dia em que encontrou
a mãe morta.
Quando Diego e Marcelo vieram buscar o
menino, Vanessa os convidou para entrar e ofereceu um café enquanto comentava
que os três estavam brincando de esconde-esconde.
— Vocês podem esperar só mais um
pouquinho? A Agatha já achou o Luís, agora só falta o Paulo. — os dois
concordaram e Diego observou a menina sair do próprio quarto e abrir a porta do
banheiro, exibindo uma expressão decepcionada.
Mas a coisa perdeu a graça depois de um
bom tempo com a menina procurando o amiguinho sem sucesso e após ser alertada
pela mãe, de que o menino tinha de ir para casa, a garota desistiu e disse em
um tom desanimado.
— Paulo? Cadê você? A brincadeira acabou,
pode sair! — e então Agatha enfim olhou no armário de limpeza, soltando um
grito horrorizado em seguida e atraindo a atenção dos três adultos, que
correram até o local, seguidos de perto por Luís que espiava a situação com uma
expressão de pavor no rosto.
Marcelo
pegou Paulo no colo e acompanhado de perto por Diego, o depositou com cuidado
no sofá, ao mesmo tempo em que Vanessa trazia um copo d’água e as duas crianças
choravam desesperadas.
— Tá tudo bem, ele só desmaiou... Fiquem
calmos. — murmurou Marcelo enquanto colocava algumas almofadas sob os joelhos
do menino, para ajudar a circulação sanguínea e alguns minutos depois ele abriu
os olhos, se surpreendendo ao ver todos o encarando com expressões que iam da
preocupação à tristeza extrema.
— O que aconteceu? — o menino perguntou,
sendo abraçado por Agatha de forma brusca. A menina chorava de soluçar e isso
assustou o garoto.
— Agatha querida, deixa ele respirar. —
sugeriu Vanessa enquanto que com sutileza afastava a filha do menino.
— A gente é que pergunta, Paulo. Você estava
desmaiado dentro do armário. Você sentiu algum mal estar? — perguntou Diego
enquanto colocava as costas da mão na testa do irmãozinho medindo sua
temperatura.
— Não, eu só... Eu não sei. — a situação
toda pela qual havia passado parecia um borrão, mas ao tentar se lembrar, Paulo
sentiu uma tontura e percebeu que era melhor não forçar.
— Tá tudo bem... Você tá bem, não
aconteceu nada mais sério. Foi só um susto, certo? — disse Diego enquanto fazia
um agrado no cabelo do menino e sugeria que ele fosse buscar a mochila para
irem embora e enquanto as três crianças saiam da sala, ele lançou um olhar para
o marido que parecia dizer “eu falei que
tinha algo errado com o Paulo”.
Se despediram, agradeceram a hospitalidade
de Vanessa e reafirmaram para Agatha que estava tudo bem, ainda assim, enquanto
voltavam para casa, Diego lançou um olhar preocupado para o menino no banco de
trás, que havia deitado e estava cochilando.
— Eu te disse que estava preocupado com
ele, não disse? — murmurou por fim para em seguida soltar um suspiro longo e cansado
e então passar a mão espalmada pelo rosto com certa bruteza.
— Depois eu vou conversar com ele, pra ver
se descubro o que aconteceu. Mas você ouviu o que a Vanessa disse, até aquele
momento os três estavam se divertindo. Ele teve uma ótima noite com os
amiguinhos... — observou Marcelo, querendo acalmar o marido, mas notando o
quanto ele devia estar se culpando pelo que aconteceu e se controlando para
respeitar os limites do outro.
— Você tem razão. E sabe, nem sei como
consegui não surtar quando vi ele ali desmaiado no chão... — ao relembrar da
cena, Diego sentiu seu estomago afundar alguns centímetros.
— A gente vai cuidar dele, juntos. Vai dar
tudo certo. — afirmou Marcelo ao mesmo tempo em que segurava a mão do marido
por alguns segundos e recebia em resposta um pequeno sorriso grato.
— Obrigado por fazer parte da minha vida. —
murmurou Diego, fungando pelo nariz e secando a ameaça de uma lagrima no olho
direito enquanto ouvia Marcelo responder sorrindo.
— Idem. — E aquela pequena palavra
significou muito para Diego.
Continua...
Notas do capitulo:
Bom, gente, aqui está mais um capítulo
desta história que eu estou escrevendo desde 2020!
Aqui vimos um pouco mais da saída dos
adultos para o cinema, como a Darcy lida com a transfobia e por fim, o Paulo
tendo um episódio emocional em que ele acabou revivendo o horror do dia em que
encontrou a mãe morta. Esse tipo de situação é bastante comum em pessoas que
passaram por traumas impactantes.
O Paulo está sofrendo de uma condição
chamada Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), que durante um episódio,
a criança revive o evento traumático de forma involuntária, sentindo e agindo
como se o perigo estivesse acontecendo novamente naquele exato momento. Isso será
mais explorado nos próximos capítulos, mas eu queria deixar uma breve
explicação para vocês.
Sobre as observações do filme que eles
foram assistir, que como no capítulo anterior eu disse, foi “O bebê de Rosemary”:
1. o que “fizeram com os olhos dele?”:
Este é o grande plot twist do filme, apesar de não vermos como são os tais
olhos do bebê da Rosemary, que é filho dela com o diabo, a atuação horrorizada
da personagem dá margem para várias possibilidades.
2. “A atriz era vegetariana, mas naquela
cena que a personagem come carne crua, ela foi obrigada a comer de verdade”:
Isso aqui também é verdade, a atriz, Mia Farrow, era vegetariana e ainda assim,
foi forçada a mastigar e engolir fígado de galinha cru por conta do “realismo”.
Ela também foi obrigada a repetir a cena várias vezes, até o diretor ficar
satisfeito. Não são poucas as histórias de diretores abusivos com o elenco nos
filmes.
Bom, gente, eu espero que quem ainda está
acompanhando esteja gostando da história e gostaria de pedir, se puderem, que
deixassem algum sinal de que leram até aqui, comentários são sempre muito
bem-vindos.
Espero conseguir trazer o próximo capítulo
em breve,
Até lá, muito obrigada por ler até aqui.
Perséfone Tenou
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