domingo, 20 de setembro de 2026

Lar é onde o coração está - capítulo 93

 

Diego não conseguiu se concentrar muito no enredo do filme, pois estava preocupado com Paulo. Será que o menino estava bem? Havia feito as pazes com Agatha? Estaria dando trabalho para Vanessa? Pensar nesta última hipótese o fiz rir internamente, porque conhecia o irmãozinho o suficiente para saber que ele jamais aprontaria.



Estava quase no final do filme quando ele sentiu a mão morna do marido segurar a sua e em resposta, entrelaçou os próprios dedos nela, enquanto soltava um pequeno suspiro de satisfação, pois eram aqueles pequenos gestos simples que o faziam perceber como o casamento deles ainda estava firme.

Ao olhar de esguelha para o lado, Diego notou a expressão vidrada no rosto de Joaquim enquanto assistia ao filme, com os olhos arregalados e a boca um pouco aberta em total fascínio e por aquele curto período de tempo o rosto do loiro abandonou aquele semblante triste com o qual ele chegou.

Com os gritos horrorizados da protagonista perguntando o que “fizeram com os olhos dele?”* o filme chegou ao fim, as luzes se acenderam e por alguns segundos os seis se entreolharam em silencio, como se estivessem digerindo aquele final abrupto.

— Bom, que tal irmos jantar agora? — sugeriu Darcy quebrando o silencio enquanto se levantava, sendo seguida de perto pelos outros. O restaurante que escolheram ficava a apenas alguns metros do cinema, por isso puderam ir a pé e conversando.

E durante o trajeto, Joaquim notou com desconforto como muitas pessoas que passavam por eles encaravam Darcy sem nenhum mínimo de sutileza, virando a cabeça para olhá-la de forma julgadora. Mas para sua surpresa, a moça parecia não reconhecer o que estava acontecendo ao redor dela e continuava conversando animada, o que fez com que o rapaz se perguntasse como ela conseguia?

***

Já na casa de Vanessa, as crianças assistiam um dvd de desenho animado enquanto ela preparava o jantar, enquanto mantinha um ouvido na sala, para apartar qualquer briga que pudesse surgir, mas, após aquele desentendimento inicial envolvendo a briga de almofadas, parecia que eles tinham feito as pazes e isso a deixava aliviada e feliz de ver a filha sorrindo de novo.

— Crianças, vão lavar as mãos e venham jantar. — Vanessa chamou enquanto espiava pela porta da sala de estar vendo os três sentados com o olhar fixo na tevê.

Ela observou as crianças saltarem do sofá e seguirem para o pequeno banheiro no corredor, comportados e sem correr, retornando para a cozinha alguns segundos depois e assim que se acomodaram nas cadeiras, Vanessa serviu o jantar no prato para os três. Macarrão com almondegas.

— A comida tá muito boa, dona mãe da Agatha. — comentou Luís enquanto enrolava uma garfada de massa e em seguida comia e o comentário fez Vanessa sorrir. Nenhum dos dois meninos a chamava pelo nome, apenas de “mãe da Agatha”, o que ela achava fofo.

— Obrigada, querido. Fico feliz que você gostou. — ela viu a filha dar um pequeno sorriso enquanto comia e sentiu um calor agradável no peito em resposta. Depois de ver a menina amuada por tantos dias e do que Silas aprontou, deixando Agatha triste, aquele sorriso era uma grande melhora.

— Vocês vão querer ver outro dvd quando esse acabar? Depois mostre pra eles sua coleção de filmes, Agatha. — A menina concordou com um meneio animado de cabeça e se forçou a engolir a comida para falar em seguida.

— Pode deixar, mãe! Tem um que eu falei pra eles que era muito legal. A gente pode assistir antes de dormir? — Vanessa respondeu que sim, ainda tinham algumas horas sobrando e poderiam assistir enquanto comiam a sobremesa.

— Eu fiz aquele bolo formigueiro que você gosta, filha. E acho que os meninos vão gostar também. — ao ouvir aquilo, Paulo se inclinou para perto da amiga e perguntou se havia formigas no bolo e em resposta a menina riu divertida enquanto respondia que não.

— É só o nome, porque o granulado é que parece formigas, mas é só bolo com chocolate. — Vanessa apoiou o queixo nas mãos enquanto olhava com carinho para a filha. Ouvir aquele riso límpido e alegre a fazia se sentir realizada como mãe.

— Entendi. Legal. — respondeu Paulo para em seguida voltar a comer o macarrão. Ele estava feliz de ter feito as pazes com a amiga e de poder passar algumas horas com ela e Luís.

***

Enquanto jantavam, discutiam sobre o filme e Mayara observou o quanto o tópico “maternidade compulsória” pareceu gritar para ela enquanto assistia o longa-metragem.

— Quero dizer, ficou meio obvio que ela não estava muito confortável em ser mãe, independente de bom, de quem era o pai da criança... — a mesa foi povoada por risinhos desconfortáveis em resposta ao comentário que fazia alusão ao enredo sobrenatural do filme.

— Eu detestei como o marido dela simplesmente a ofereceu como uma espécie de troca para obter sucesso na carreira dele. Assim que ela informou da gravidez, ele não se deu nem ao trabalho de esconder a repulsa! — complementou Darcy para em seguida tomar um gole de suco.

— Fiquei sabendo que a atriz era vegetariana*, mas naquela cena que a personagem come carne crua, ela foi obrigada a comer de verdade! Já imaginou isso? Que nojo! — observou Letícia, que também era vegetariana, causando uma surpresa geral na mesa.

— Fazia tempo que eu não ia ao cinema. Foi bem divertido. — destacou Joaquim ao mesmo tempo em que empurrava um punhado de comida de um lado para o outro do prato. Ultimamente não estava tendo muito apetite e apesar de ter uma ideia do motivo, isso não o ajudava em nada.

— Sim, foi muito bom! A gente precisa sair mais vezes. — Diego sorriu ao mesmo tempo em que corria o olhar pela mesa, absorvendo as expressões de satisfação no rosto dos demais presentes enquanto sugeria um brinde. Ele também havia optado por um suco.

— Um brinde, a esta noite maravilhosa! — em resposta os outros ergueram suas taças em um gesto coletivo e enquanto erguia a sua própria, Joaquim sentiu mais uma vez que a sensação de fazer parte de um grupo de amigos era algo muito bom.

Eles ficaram mais algumas horas no restaurante e quando chegou o momento de ir embora, Joaquim se preparava para ir até o metrô, quando sentiu sua mão ser segurada com gentileza e ao olhar para trás, encontrou Darcy que sorria gentil para ele.

— Aonde você vai fofinho? Eu te dou uma carona até em casa. Vem. — se despediram dos outros com abraços e beijinhos no rosto e então seguiram até o estacionamento onde a loira havia guardado o carro.

***

Enquanto voltavam para casa, Diego pensava no quanto foi bom sair com outros adultos. Eles não tinham muitos amigos e agora que estavam criando Paulo, o círculo parecia ter encolhido ainda mais.

— Tá tudo bem? — Marcelo perguntou enquanto olhava de soslaio para o marido e recebendo em resposta um pequeno sorriso satisfeito.

— Tá sim, eu só ainda não me acostumei a sair com outros adultos... É bobo, não? — Diego riu e franziu o nariz.

— Não acho bobo. É bom sair com pessoas da nossa idade para se divertir. — as ruas estavam desertas naquela hora da noite, com exceção de uns poucos gatos pingados que estavam indo para alguma boate.

— Eu só estou pensando se fiz bem de deixar o Paulo na casa da Vanessa. Digo, claro que ela cuida muito bem das crianças, mas as vezes eu sinto que ainda tem tanto trauma dentro dele e que não vai passar tão cedo... — sentiu a mão morna de Marcelo segurar a sua e experimentou uma sensação de paz completa que só o toque do marido conseguia lhe dar.

— Ele está bem. Amanhã a tarde nós vamos busca-lo e você já sabe né, ele vai implorar para ficar mais um pouco e brincar com a Agatha. Não se preocupe, eu acho que já te disse isso mais vezes do que consigo contar, mas você está criando ele bem. — declarou Marcelo enquanto fazia uma curva suave com o carro.

— Nós estamos. Você tem me ajudado muito nisso. — declarou Diego, aceitando que suas preocupações não eram reais o suficiente para ocuparem tanto espaço em sua mente.

— Com certeza. E amanhã nós vamos buscar o rapazinho. Agora, me diz uma coisa, você tá a fim de fazer algo mais... Físico hoje a noite, já que estamos sozinhos em casa ou melhor deixar para outro dia? — Indagou Marcelo quando estavam entrando com o carro na garagem da casa, ao que o outro respondeu com um risinho sem graça e um murmúrio.

— Tou tão exausto que acho que não teria ânimo para fazer nada. Desculpa... — Diego se sentia incomodado ao recusar a sugestão do marido, afinal, também gostava de sexo e se sentia bem quando ficavam íntimos, mas a carga de exaustão que ele vinha carregando do trabalho, somado à criação de Paulo o tinham esgotado.

Percebendo o impacto negativo que havia causado, Marcelo soltou o cinto de segurança e envolveu Diego em um abraço terno, depositando um beijo no topo da cabeça dele enquanto murmurava: — Tá tudo bem, a gente pode só dormir por hoje, precisamos recarregar as baterias. E também, vamos ter outras chances no futuro, quando ambos estivermos animados.

Ao ouvir aquelas palavras, Diego soltou um longo suspiro de alivio contra o peito firme de Marcelo e mais uma vez ele agradeceu em silencio pelo marido ser o seu porto seguro em momentos de dificuldade.

***

Darcy dirigia com suavidade, mas Joaquim não conseguia deixar de pensar naquele momento em que várias pessoas viraram os pescoços para encará-la de forma desconfortável e invasiva. Ele vinha simulando na cabeça como comentar sobre a situação sem magoar a moça, que no momento lhe contava sobre seu trabalho em uma grande empresa multinacional.

— Er, Darcy, eu queria perguntar uma coisa pra você... Não precisa responder se for muito desconfortável... — ele sentiu o olhar dela por alguns segundos e então a ouviu dizer: — Claro, fofinho, pode perguntar.

— É que, quando a gente saiu do cinema e estávamos indo para o restaurante, eu notei que algumas pessoas ficavam... Te encarando de uma forma meio rude, mas também percebi que você não se abalou com isso, como você consegue... Ser assim tão forte e ignorar esse tipo de coisa? — Me desculpa se eu estou sendo inconveniente. — complementou logo em seguida.

Darcy esboçou um pequeno sorriso e após tamborilar de leve os dedos no volante, respondeu em seu tom animado de voz.

— Ah fofinho, quando você faz parte de uma minoria marginalizada, só existem dois caminhos: ou aprende a passar por cima desse povo e ignorá-los ou é atropelada por eles. Depois de tantos anos sofrendo com a segunda opção, enfim eu aprendi a me blindar emocionalmente. Claro que não foi uma coisa que aconteceu da noite para o dia, mas aprendi por experiência própria que é preciso criar uma casca grossa quando se sai na rua, ainda mais sendo uma grande gostosa como é o meu caso. — Joaquim não conseguiu evitar de sorrir ao ouvir o comentário da amiga, porque tinha de concordar, Darcy era mesmo uma “grande gostosa”.

— Obrigado por me responder. — murmurou o rapaz ainda meio sem graça, se surpreendendo ao sentir a mão morna de Darcy segurar a sua por alguns segundos enquanto ela respondia.

— Está tudo bem, fofinho. Você não fez nenhuma pergunta inconveniente. Agora me fala, como estão os preparativos pro grande dia?  — Joaquim contou para a amiga sobre o que estava fazendo para o casamento e as reações animadas dela o fizeram se sentir querido.

***

O suspiro profundo de Mayara não passou despercebido por Letícia, que ao parar em um semáforo, perguntou se a namorada queria passar a noite no apartamento dela.

— Quero dizer, você parece bem cansada e eu pensei que talvez quisesse... Você sabe... — Mayara esboçou um pequeno sorriso exausto enquanto piscava com lentidão e via a namorada corar meio desajeitada.

— Adoraria ficar na sua casa... Só vou avisar para as minhas mães, você sabe como elas ficam quando eu estou fora, né? — Letícia ouviu a conversa enquanto sorria com leveza, mordendo o lábio inferior para conter um risinho ao ouvir a outra moça dizer “Sim mãe, está tudo bem, eu volto amanhã. Eu não sou mais criança!”.

— Eu amo as minhas mães, mas as vezes... Ugh! É meio sufocante! — desabafou Mayara ao mesmo tempo em que jogava o celular com certa brusquidão dentro da bolsa e em resposta, Letícia comentou num tom despretensioso.

— Você é a filha única delas... É compreensível. — ao que a outra rebateu com “e você é a caçula, não é assim na sua família também?

— Não desde que eu sai do armário. A mãe da Talita, minha irmã mais velha me adora, tanto que ela disse que vai mandar a menina pra cá de novo nas festas de fim de ano, mas meus pais, bom... Digamos que eu não sou o maior orgulho da família. Eles fingem que eu não sou lésbica e eu finjo que não me chateio com isso. Até agora tem funcionando... Eu acho.

— Eu... Não sabia que as coisas eram assim com seus pais. Me desculpe por ter sido tão insensível. — sussurrou Mayara enquanto puxava o rabo de cavalo sobre um dos ombros e começava a alisar o cabelo em um gesto nervoso.

Estavam entrando no estacionamento do prédio e assim que parou na sua vaga, Letícia segurou a mão da namorada, impedindo-a de continuar com aquele comportamento compulsivo. Elas ficaram alguns minutos ali, em silencio, apenas apreciando o calor morno das suas mãos juntas, até que, inclinando-se com cuidado para perto da namorada, Letícia deixou que seus lábios se tocassem em um beijo suave e gentil.

— Você não precisa se desculpar. Até porque, suas mães meio que me adotaram e eu me sinto muito querida quando vou lá na sua casa. E de quebra eu ainda tenho você na minha vida. — em resposta Letícia sentiu um tapa leve ser dado em seu ombro enquanto ouvia a namorada rir e sussurrar “sua boba”.

Em resposta ela sorriu e colocou uma mecha de cabelos que havia se soltado do penteado de Mayara atrás da orelha da moça, enquanto dizia num tom apaixonado.

— Você fica linda quando ri, sabia? — ao que a moça respondeu com um tom de voz divertido.

— E você só descobriu isso agora? Vem, vamos subir, eu preciso muito de um banho e uma boa noite de sono, abraçada em você.

***

Quando Francisco enfim conseguiu voltar para casa, já era quase meia-noite. A reunião demorou mais do que o previsto e apesar de ele ter pensado em passar num restaurante tailandês que Joaquim gostava, para fazer um agrado, quando chegou lá o lugar já tinha fechado.

Assim que abriu a porta do apartamento, ele disse: 

— Querido, cheguei! — mas foi recebido por um cômodo no escuro e ao ir até o quarto deles, descobriu que o namorado já tinha ido dormir.

Permaneceu alguns segundos observando Joaquim respirando de forma tranquila sob as cobertas, até que resolveu trocar de roupa e deitar ao lado dele e no momento em que sua cabeça tocou no travesseiro, sentiu o outro se aninhar contra ele, ainda adormecido e em resposta, Francisco abraçou o corpo morno do namorado, aspirando o aroma delicado do shampoo que ele usava.

Ele queria perguntar como havia sido a ida ao cinema e tudo o mais, mas poderia esperar até de manhã. Só de ter o loiro ali ao seu lado já era o suficiente por hora.

***

No dia seguinte, depois do almoço, na casa de Vanessa, as três crianças decidiram que queriam brincar de esconde-esconde. Agatha iria contar, enquanto Paulo e Luís se esconderiam. A mãe da menina achou uma boa ideia, mas pediu para que tomassem cuidado e não se enfiassem em nenhum lugar difícil de entrar (porque também seria difícil de sair). Enquanto a moça lavava a louça do almoço, ouvia a filha contar e os passinhos apressados dos dois meninos pela sala e corredor.

Após uma breve busca, Paulo achou o esconderijo perfeito. Um armário no fim do corredor onde a mãe de Agatha guardava toalhas e produtos de limpeza. Ele entrou no espaço e fechou a porta atrás de si com cuidado, para não fazer nenhum som. Agatha jamais o encontraria ali.

Mas no momento em que se viu cercado pela escuridão e silencio dentro do pequeno armário, um sentimento sufocante foi tomando conta do menino e logo ele já não escutava mais a voz da menina cantando os números.

E em questão de segundos ele se viu no quarto onde encontrou sua mãe caída entre a cama e a mesinha de cabeceira. Ela estava com os olhos arregalados e a boca escancarada em um grito sem som. E ele era o único ali com ela. Não havia mais ninguém para ajudá-lo.

Conforme os minutos foram passando, Paulo sentiu um aperto forte na garganta e o ar de seus pulmões sumindo aos poucos enquanto tudo a sua volta ficava cada vez mais escuro e então, o menino desabou no chão do pequeno armário, atormentado pela lembrança do dia em que encontrou a mãe morta.

Quando Diego e Marcelo vieram buscar o menino, Vanessa os convidou para entrar e ofereceu um café enquanto comentava que os três estavam brincando de esconde-esconde.

— Vocês podem esperar só mais um pouquinho? A Agatha já achou o Luís, agora só falta o Paulo. — os dois concordaram e Diego observou a menina sair do próprio quarto e abrir a porta do banheiro, exibindo uma expressão decepcionada.

Mas a coisa perdeu a graça depois de um bom tempo com a menina procurando o amiguinho sem sucesso e após ser alertada pela mãe, de que o menino tinha de ir para casa, a garota desistiu e disse em um tom desanimado.

— Paulo? Cadê você? A brincadeira acabou, pode sair! — e então Agatha enfim olhou no armário de limpeza, soltando um grito horrorizado em seguida e atraindo a atenção dos três adultos, que correram até o local, seguidos de perto por Luís que espiava a situação com uma expressão de pavor no rosto.

 Marcelo pegou Paulo no colo e acompanhado de perto por Diego, o depositou com cuidado no sofá, ao mesmo tempo em que Vanessa trazia um copo d’água e as duas crianças choravam desesperadas.

— Tá tudo bem, ele só desmaiou... Fiquem calmos. — murmurou Marcelo enquanto colocava algumas almofadas sob os joelhos do menino, para ajudar a circulação sanguínea e alguns minutos depois ele abriu os olhos, se surpreendendo ao ver todos o encarando com expressões que iam da preocupação à tristeza extrema.

— O que aconteceu? — o menino perguntou, sendo abraçado por Agatha de forma brusca. A menina chorava de soluçar e isso assustou o garoto.

— Agatha querida, deixa ele respirar. — sugeriu Vanessa enquanto que com sutileza afastava a filha do menino.

— A gente é que pergunta, Paulo. Você estava desmaiado dentro do armário. Você sentiu algum mal estar? — perguntou Diego enquanto colocava as costas da mão na testa do irmãozinho medindo sua temperatura.

— Não, eu só... Eu não sei. — a situação toda pela qual havia passado parecia um borrão, mas ao tentar se lembrar, Paulo sentiu uma tontura e percebeu que era melhor não forçar.

— Tá tudo bem... Você tá bem, não aconteceu nada mais sério. Foi só um susto, certo? — disse Diego enquanto fazia um agrado no cabelo do menino e sugeria que ele fosse buscar a mochila para irem embora e enquanto as três crianças saiam da sala, ele lançou um olhar para o marido que parecia dizer “eu falei que tinha algo errado com o Paulo”.

Se despediram, agradeceram a hospitalidade de Vanessa e reafirmaram para Agatha que estava tudo bem, ainda assim, enquanto voltavam para casa, Diego lançou um olhar preocupado para o menino no banco de trás, que havia deitado e estava cochilando.

— Eu te disse que estava preocupado com ele, não disse? — murmurou por fim para em seguida soltar um suspiro longo e cansado e então passar a mão espalmada pelo rosto com certa bruteza.

— Depois eu vou conversar com ele, pra ver se descubro o que aconteceu. Mas você ouviu o que a Vanessa disse, até aquele momento os três estavam se divertindo. Ele teve uma ótima noite com os amiguinhos... — observou Marcelo, querendo acalmar o marido, mas notando o quanto ele devia estar se culpando pelo que aconteceu e se controlando para respeitar os limites do outro.

— Você tem razão. E sabe, nem sei como consegui não surtar quando vi ele ali desmaiado no chão... — ao relembrar da cena, Diego sentiu seu estomago afundar alguns centímetros.

— A gente vai cuidar dele, juntos. Vai dar tudo certo. — afirmou Marcelo ao mesmo tempo em que segurava a mão do marido por alguns segundos e recebia em resposta um pequeno sorriso grato.

— Obrigado por fazer parte da minha vida. — murmurou Diego, fungando pelo nariz e secando a ameaça de uma lagrima no olho direito enquanto ouvia Marcelo responder sorrindo.

— Idem. — E aquela pequena palavra significou muito para Diego.

Continua...

 

 

Notas do capitulo:

Bom, gente, aqui está mais um capítulo desta história que eu estou escrevendo desde 2020!

Aqui vimos um pouco mais da saída dos adultos para o cinema, como a Darcy lida com a transfobia e por fim, o Paulo tendo um episódio emocional em que ele acabou revivendo o horror do dia em que encontrou a mãe morta. Esse tipo de situação é bastante comum em pessoas que passaram por traumas impactantes.

O Paulo está sofrendo de uma condição chamada Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), que durante um episódio, a criança revive o evento traumático de forma involuntária, sentindo e agindo como se o perigo estivesse acontecendo novamente naquele exato momento. Isso será mais explorado nos próximos capítulos, mas eu queria deixar uma breve explicação para vocês.

Sobre as observações do filme que eles foram assistir, que como no capítulo anterior eu disse, foi “O bebê de Rosemary”:

1. o que “fizeram com os olhos dele?”: Este é o grande plot twist do filme, apesar de não vermos como são os tais olhos do bebê da Rosemary, que é filho dela com o diabo, a atuação horrorizada da personagem dá margem para várias possibilidades.

2. “A atriz era vegetariana, mas naquela cena que a personagem come carne crua, ela foi obrigada a comer de verdade”: Isso aqui também é verdade, a atriz, Mia Farrow, era vegetariana e ainda assim, foi forçada a mastigar e engolir fígado de galinha cru por conta do “realismo”. Ela também foi obrigada a repetir a cena várias vezes, até o diretor ficar satisfeito. Não são poucas as histórias de diretores abusivos com o elenco nos filmes.

Bom, gente, eu espero que quem ainda está acompanhando esteja gostando da história e gostaria de pedir, se puderem, que deixassem algum sinal de que leram até aqui, comentários são sempre muito bem-vindos.

Espero conseguir trazer o próximo capítulo em breve,

Até lá, muito obrigada por ler até aqui.

Perséfone Tenou

 

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