sábado, 7 de março de 2026

Lar é onde o coração está - capítulo 91


Durante toda aquela semana, Paulo resolveu ficar afastado de Agatha e Luís, por não se sentir bem em falar com eles. Apesar da conversa que teve há algumas noites com Diego, o menino ainda se sentia mal por ter, mesmo que sem querer, chateado as outras duas crianças falando sobre assuntos que poderiam ser dolorosos.


No intervalo das aulas, ele se escondeu no banheiro dos meninos para comer o lanche e na hora que Mayara foi buscá-lo, saiu correndo antes que Agatha pudesse lhe falar algo. Paulo sabia que o que estava fazendo não era legal e que talvez isso estivesse tornando tudo ainda pior, mas ele não conseguia encarar os dois amigos naquele momento.

E quando chegou a sexta-feira e Vanessa foi buscar a filha, ela percebeu que a menina parecia meio abatida e tristonha e ao perguntar se havia acontecido algo na escola, viu Agatha fungar baixinho, como se estivesse tentando controlar o choro e responder com um “não” quase inaudível.

— Tem certeza, querida? Então, porque você parece tão chateada? — demorou alguns minutos para a garota contar à mãe o que havia acontecido, ou melhor, o que não havia acontecido, já que Paulo a evitou por todos aqueles dias.

— Ele não falou comigo ou com o Luís a semana toda! Será que o Paulo não gosta mais de mim como amiga? — e assim que falou a ultima palavra, a menina se desmanchou em um choro doloroso e constante, o que fez com que Vanessa estacionasse em uma vaga próxima da calçada, para poder abraçar a filha.

— Que isso, meu bem? Ele só deve estar passando por um período ruim. O Paulo é um bom garoto e vocês sempre se deram bem... O que acha de eu ligar para o Diego e a Míriam e combinar de vocês três passarem algumas horas juntos amanhã? É sábado e eu vou estar de folga do salão. — apesar de Vanessa ter feito alguns planos para sua folga, ela não se importava de abrir mão sem pensar duas vezes, se isso fizesse a filha sorrir.

A menina fungou mais um pouco e ergueu os grandes olhos negros e profundos encarando a mãe, que secou uma lágrima teimosa a qual ainda escorria bochecha abaixo. E então Vanessa ouviu a garota perguntar em um fio de voz “Você promete?

— É claro, amor. Agora não chora mais, ta? Vai dar tudo certo amanhã. — Agatha concordou com um meneio animado de cabeça e em poucos minutos já estava em seu estado normal, falante e animada.

***

Joaquim e Francisco foram buscar as alianças naquela tarde, durante o horário de almoço do loiro e se fosse por ele, já começaria a usar a sua naquele exato momento, mas foi convencido pelo namorado a esperar o dia da cerimônia. “Fica mais especial assim”, foi o que Francisco disse e o outro rapaz acabou aceitando.

Mas, claro que antes de colocar a jóia de volta na caixinha, ele tirou uma foto usando o anel no anelar da mão esquerda e enviou por whatsapp para as poucas amizades que tinha e enquanto abria a loja de sabonetes, ele sentiu o celular vibrar animado em seu bolso.

Darcy enviou um monte de figurinhas animadas repletas de corações e bichinhos fofos pulando, Mayara respondeu com um “Mas que coisa linda!” enquanto Diego enviou um emoji surpreso seguido de “Ficou muito boa”.

— O pessoal curtiu a aliança. — informou o loiro, ao mesmo tempo em que entrava na loja, seguido por Francisco, que o abraçou pela cintura, arrancando um risinho nervoso e uma repreensão velada, “A porta é de vidro, alguém pode ver a gente”. Ao que em resposta, o outro apenas riu e depositou um beijo suave na curva do pescoço do namorado – seu “futuro marido”.

— E você tem vergonha? Ou medo? — perguntou Francisco enquanto caminhava com o outro até a pequena copa nos fundos da loja e ouvia o loiro responder com um quê de divertimento na voz.

— Você sabe que não, mas eu estou trabalhando... Não quero que alguém vá reclamar de mim para Lola e Joana. — “Como se elas fossem se incomodar”, complementou Francisco enquanto sentia Joaquim girar dentro do seu abraço firme e o encarar nos olhos, ficando nas pontas dos pés para beijá-lo com carinho e em resposta, enredando os dedos firmes dele naqueles cabelos loiros e macios.

— Ainda não acredito que a gente vai casar “De papel passado” como dizia uma tia minha... — sussurrou Joaquim enquanto encostava a testa contra o peito morno do namorado e sentia-o abraçá-lo com gentileza.

— Você sabe que... Na verdade, nada vai mudar entre a gente, né? Mas agora eu posso te colocar como meu dependente no plano de saúde! — Declarou Francisco, cujos lábios estavam a apenas alguns centímetros do cabelo sedoso e claro de Joaquim. O aroma do shampoo que ele usava invadia suas narinas com brandura, inebriando-o.

— Pois é, foi só por isso que eu aceitei. Para entrar pro seu plano de saúde... E ah é, e também porque eu te amo! — eles trocaram mais alguns beijos apaixonados, mas Joaquim fez o namorado ir embora antes que as coisas esquentassem demais.

— Eu vou aproveitar que a loja está sem movimento e estudar para uma prova do técnico. Você vem me buscar as seis? — perguntou ao mesmo tempo em que se apoiava na porta de vidro aberta e via Francisco sair, ao mesmo tempo em que ouvia o sininho em cima tilintar e para sua surpresa, sentiu um beijo suave ser depositado no topo da sua cabeça enquanto ouvia o outro murmurar que “Claro, eu venho te buscar as seis, como sempre. Bom trabalho. Qualquer coisa, me liga”.

Joaquim viu o namorado sumir na esquina e então, como se estivesse em uma cena daqueles filmes de romance adolescente, ele se encostou contra a porta fechada da loja e se deixou escorregar de vagar até o chão, exibindo um sorriso bobo de apaixonado.

O casamento deles seria dali exatamente um mês e meio.

***

Marcelo estava atendendo um paciente na clinica de acupuntura, o homem se queixava de enxaquecas recorrentes e violentas, mas lhe confessou que após algumas sessões, vinha sentindo alguma melhora.

— Certo então, Seu Jeremias, eu já fiz a aplicação, agora o senhor fica aqui em repouso por uma hora, para o tratamento fazer efeito. Eu vou dar um pulo rápido ali fora para tomar um café, mas qualquer coisa é só chamar e a Claudia da recepção vem aqui. — Marcelo observou seu paciente, que exibia uma série de agulhas especificas para o tratamento, aplicada de forma estratégica e em pontos vitais do rosto, e ainda assim, o homem conseguiu esboçar um sorriso e comentar que quando a sessão acabasse ele também iria pegar um gole de café.

Marcelo se retirou da pequena sala onde estava tratando de Jeremias e rumou para a copa, mas ao invés de pegar café, ele sacou o celular do bolso de trás da calça, para checar as mensagens e se espantou ao ver que Diego tinha lhe ligado algumas vezes, mas ele não viu, pois por estar trabalhando, o aparelho ficava no silencioso.

Esticou os olhos para o relógio pendurado acima do armário da copa e ao ver que ainda tinha tempo, resolveu arriscar ligar para o marido, que talvez não pudesse atender, se estivesse mostrando uma casa, mas, para sua surpresa, o outro atendeu no segundo toque.

— Oi, aconteceu alguma coisa? Ta tudo bem com você? E com o Paulo? — Marcelo não conseguia evitar se preocupar, afinal, para o outro ter lhe ligado tantas vezes seguidas, só podia ter acontecido alguma coisa séria.

— Eu estou bem, tou almoçando aqui com o Raul, ele mandou um oi pra você. — ouviu então um som de movimento e um pedido murmurado de desculpas e por alguns segundos tudo ficou em silencio.

— Me afastei do Raul pra falar com você com calma... — Diego soltou um suspiro pesado e cansado que pode ser sentido por Marcelo, do outro lado da linha.

— Você perguntou se o Paulo estava bem, então... A Vanessa me mandou um áudio me contando que ele não conversou com a Agatha ou o Luís a semana toda, mesmo depois de eu ter falado com ele. Então ela perguntou se eu deixava ele ir posar na casa dela esse final de semana... Eu não vejo problema, mas preciso ver se ele vai querer... Desculpa ter te ligado tantas vezes, você tá trabalhando, deve até estar tratando um paciente agora e... Eu aqui criando tempestade em um copo d’água. — Marcelo ouviu outro suspiro pesado do outro lado da linha e pensou em um milhão de possíveis respostas, mas no fim optou pela mais simples.

— Tá tudo bem. Eu estou aqui pra você. — ouviu um risinho nervoso e engasgado soar pelo telefone, seguido de um suspiro fundo e exausto. Mas aquilo indicava que Diego estava mais calmo.

— Desculpa mesmo ser tão... Dependente, inconveniente... Você escolhe! Mas é que eu não sei o que fazer pelo Paulo. Ele é uma ótima criança. Mas é tão retraído emocionalmente que às vezes... Eu nem sei o que fazer! — Enquanto segurava o celular próximo da orelha, Marcelo esboçou um pequeno sorriso compreensivo.

— Quando a gente chegar em casa, vamos conversar com ele, juntos. Como você disse, ele é uma boa criança, mas com tudo o que ele passou antes de vir morar conosco, é compreensível esse comportamento meio preservador. Porque na cabecinha dele, essa coisa de se afastar dos amigos é uma forma de impedir que as coisas fiquem piores. — Diego deu outro riso curto e se desculpou novamente por incomodar Marcelo durante o trabalho.

— Não se preocupe com isso. O meu paciente está bem e eu podia retornar a ligação, então não houve problema nenhum. A gente se vê a noite, ta? Te amo. — em resposta ouviu Diego dizer “Até a noite então. Também te amo”. Mas, apesar de já terem desligado, Marcelo ainda ficou quase um minuto encarando a tela escura do celular e pensando em como lidariam com aquela situação envolvendo Paulo.

Ultimamente eles vinham conversando bastante sobre a saúde mental do menino. Diego queria encontrar um psicólogo infantil para levá-lo, mas não queria assustar o irmãozinho. E ao mesmo tempo, ele relatava para Marcelo pequenos comportamentos que vinha observando no garoto, nada preocupante, mas que pareciam ser traços de traumas ocultos.

Claro, muito daquela bagagem emocional distorcida foi causada pelo pai do menino. Marcelo nunca conheceu Wando, nem mesmo chegou a ver uma foto sequer do cara, mas pelo que Diego lhe contava, somado aos fragmentos que Paulo as vezes deixava escapar, o homem não era uma boa pessoa.

Já quanto a mãe biológica de Diego (durante muitos anos ele fez questão de se referir a ela desta forma), Beatriz, Marcelo tinha um pouco mais de conhecimento. Sabia pela única foto que Paulo trouxe na bagagem, que ela era uma mulher negra retinta, alta e magra e com uma expressão de sofrimento constante no rosto, mas também, casada com um traste como o padrasto de Diego...

Quanto ao pai, Diego falava dele muito pouco. Mas sempre que comentava, era com carinho e reverencia, pois o pai do rapaz faleceu quando ele ainda era criança, dois anos mais velho do que Paulo. O homem foi atropelado por um carro enquanto voltava do trabalho.

— Ei, Terra para Marcelo... — se surpreendeu ao encontrar Claudia, a recepcionista da clinica, parada em pé ao seu lado o olhando com um pequeno sorriso divertido nos lábios.

— Algum problema? — ele perguntou enquanto via a moça se servir de um copo de café, no qual ela deu uma série de pequenos sopros para esfriar.

— Talvez, porque já faz quase uma hora que o seu paciente está lá. — informando isso, a moça retornou para a recepção, ainda exibindo aquele sorrisinho de quem sabia de algo e não ia contar. E ao conferir o relógio da copa, Marcelo se deu conta de que ela estava certa e com isso, ele correu de volta para a saleta onde Jeremias estava!

***

Joaquim havia acabado de vender um kit de banho infantil para uma jovem grávida que lhe disse estar montando o enxoval do bebê. Isso foi uma meia hora depois que Francisco foi embora e desde então, ele não tinha conseguido estudar nada para a prova daquela noite.

Equilibrar trabalho e o curso técnico (e mais os preparativos para o casamento) estava se tornando bastante exaustivo, mas ele sabia que não devia abrir mão de nenhuma das três coisas. Pelo menos já tinham ido buscar as alianças, o cartório estava reservado e tinham conseguido alugar um salão e um buffet para a recepção. Esses dois últimos foram parcelados a perder de vista no cartão, mas valeria a pena.

Agora só faltava arrumar quatro testemunhas (       que chamava na sua cabeça de “padrinhos e madrinhas” e cujos nomes eles já haviam escolhido) e o bolo. Joaquim disse que não queria nada extravagante, e como convidariam poucas pessoas, o salão de porte médio que alugaram iria servir.

Ele ia pedir o contato da confeitaria em que Mayara encomendou o bolo de bodas das mães, apesar de pelo que tinha lido na internet, encomendar um bolo de casamento, por mais simples que fosse, com pouco mais de um mês antes da data, era algo arriscado.

Estava entretido pensando nas possibilidades e ao mesmo tempo rindo internamente por até então ter se recusado com tanta convicção a aceitar o pedido de Francisco (“e agora olha só quem está todo bobo com os preparativos!” pensou) que levou um susto quando o celular começou a vibrar em cima da bancada de vidro, fazendo um barulho e tanto.

Quando conferiu o identificador de chamadas, abriu um sorriso jovial que iluminou seu rosto.

— Alô? — e assim que atendeu, foi inundado pela voz efusiva de Darcy.

— Oi fofinho! Tudo bem? — depois de um breve dialogo básico, a moça informou a ele o motivo da ligação.

— Sabe o que é? É que eu queria ir ao cinema esse final de semana, mas estou sem companhia, daí pensei que talvez você tivesse interesse. E daí você podia chamar aquelas duas meninas fofas com que a gente saiu pra beber outro dia e aquele seu casal de amigos lindos. E claro, o Fran! Ele tem cuidado bem de você, fofinho? — Darcy era como uma onda marítima emocional e Joaquim se sentia afogado em satisfação quando falava com ela.

— Está sim. Ele é um ótimo namorado. — respondeu enquanto sorria de forma inconsciente ao se lembrar dos momentos que passou com Francisco algumas horas atrás.

— Então eu não vou precisar dar um beliscão nele, que bom. Ha ha. — o riso dela reverberou pela ligação e preencheu o espaço solitário da loja, fazendo o loiro pensar em como Darcy conseguia irradiar vida apenas por existir.

— A gente pode ir jantar também, antes ou depois do cinema, vocês decidem! Ai, agora eu tenho que ir, vou entrar em reunião com uns acionistas gringos... Me deseje sorte! — ao que o rapaz respondeu “Vai dar tudo certo” e “me manda os detalhes por whats depois”.

Darcy se despediu lhe mandando um beijo e alguns segundos após a ligação ter sido encerrada, o loiro ainda podia ouvir o eco da voz dela em sua mente.

***

Ao chegar em casa, Marcelo encontrou o marido conversando com Paulo e viu que apesar de Diego estar usando um tom de voz tranquilo e gentil, o menino estava encolhido no sofá  enquanto exibia uma expressão contraída e magoada.

 — ...Entende? Você não precisa ficar sem falar com eles... — Marcelo se aproximou e colocou a mão sobre o ombro esquerdo do marido, atraindo assim a atenção de Diego e de Paulo.

— Oi, você voltou, eu não percebi... A gente tava conversando, né Paulo? — o menino respondeu com um meneio de cabeça curto, enquanto ainda exibia uma expressão emburrada no rosto.

— Eu percebi. O que acha de você ir tomar um banho enquanto eu termino de conversar com ele aqui? — por alguns segundos, Diego encarou o marido com um pouco de mágoa, pois sentiu como se sua autoridade de responsável pelo irmãozinho estivesse sendo arrancada dele, mas após uma troca significativa de olhares, ele compreendeu que Marcelo só estava querendo ajudar.

— Certo, eu tou precisando mesmo de um banho... Daí quando eu voltar te conto sobre um convite que o Joaquim mandou pra gente sair juntos amanhã. — Diego fez um cafuné no cabelo de Paulo e em resposta o menino esboçou um pequeno sorriso.

Marcelo viu Diego rumar para o pequeno corredor que levava ao banheiro e após ouvir a posta fechar, ele se sentou ao lado de Paulo e começou a conversar com o menino, perguntando porque ele vinha evitando falar com os amiguinhos durante aquela semana.

— Ah, eu achei que assim não ia chatear eles... Que nem aconteceu outro dia... Mas daí agora o Diego me disse que a mãe da Agatha falou que ela ficou triste, porque eu não falei com ela... Eu não queria deixar a Agatha triste! Eu queria... — o menino suspirou fundo e jogou a cabeça para trás, repousando-a nas costas do sofá.

— Sabe, às vezes a gente acaba chateando alguém sem nem saber, isso acontece... Mas o mais importante é entender que não podemos prever o que vai ou não deixar alguém triste, entende? O Diego também me disse que a Vanessa te convidou para pousar lá na casa dela, com a Agatha e o Luís. Você quer ir? — os olhos do menino se arregalaram de surpresa, o que deixou claro que Diego não havia chegado até essa parte da conversa e em resposta, o garoto meneou a cabeça de forma positiva com entusiasmo, exibindo um largo sorriso de felicidade.

— Eu quero sim! Eu posso? — Marcelo respondeu que sim, claro que podia e viu a expressão do menino mudar drasticamente daquela que encontrou quando havia chegado em casa.

Em seguida, Paulo saltou do sofá, se preparando para correr até o quarto e pegar alguma coisa que queria mostrar, mas Marcelo o impediu segurando-o com delicadeza pelo pulso e fazendo o menino encará-lo.

— Antes de você sair daqui Paulo, eu queria falar uma coisa. O Diego só estava tentando te ensinar como devemos tratar os nossos amigos. Ele não estava “sendo chato”, você entende isso, certo? — Paulo concordou com um meneio curto de cabeça e após ter seu pulso liberado, saiu correndo para o quarto.

***

Naquele fim de tarde, Letícia passou na casa de Diego e Marcelo para buscar a namorada. Mayara ia posar na sua casa e elas pretendiam fazer uma noite de cinema, mas ela aceitou  o convite de Joaquim para irem ao cinema sem nem hesitar.

— Vai ser bom sair com o pessoal de novo. — concordou Letícia, enquanto parava em um sinal vermelho e olhava de forma rápida para a namorada, que soltou um suspiro cansado.

— Dia puxado hoje? — Mayara deu um risinho exausto e puxou um punhado grande de cabelo para o lado, começando a trançá-lo de forma distraída.

— Um pouco... Quem acha que tomar conta de uma criança é um trabalho fácil, está muito enganado. O Paulo é um doce, mas ainda assim, tem seus momentos complicados, como qualquer criança. — Letícia estava hipnotizada pela forma natural com que a outra fazia aquela trança com os cabelos, a ponto de não ter notado a mudança de cor do sinaleiro, até que o carro atrás buzinou irritado.

— E como foi o seu dia lá no escritório? — Mayara perguntou enquanto olhava para a namorada e a via suspirar com desanimo antes de responder.

— Ah, o mesmo de sempre. Trabalhar na parte de marketing da empresa não é nada interessante... Mas é aquela coisa, é um emprego e paga as minhas contas... Mas, juro que não era o que eu sonhava fazer quando me formei na faculdade. — Letícia sentiu a mão de Mayara segurar a sua por alguns segundos e sorriu, o contato morno da pele macia da namorada contra  sua lhe dava animo para continuar.

***

Quando Marcelo entrou no quarto, encontrou Diego trocando de roupa para dormir. Durante o jantar o outro quase não falou, com exceção do momento em que Paulo perguntou se poderia pousar na casa de Agatha no dia seguinte. E após fechar a porta, Marcelo se aproximou do marido e o abraçou pela cintura, sentindo-o suspirar fundo de forma frustrada e exausta. 

— Você ta bem? — perguntou enquanto sentia Diego deitar a cabeça para trás e encostá-la em seu ombro.

— Na verdade, não muito. Eu sinto que não estou sendo muito bom em cuidar do Paulo... É como se eu estivesse fazendo tudo errado! — Diego se desvencilhou do abraço e se jogou sobre a cama, soltando um suspiro pesado e em seguida lançado um olhar magoado para o marido.

— Antes de eu entrar no banho, escutei vocês conversando. Como você levou o assunto de uma forma bem mais tranquila que eu e o jeito que ele reagiu... Às vezes eu acho que você tem mais jeito com ele do que eu. — assim que falou, Diego deu um risinho triste e cobriu o rosto com as mãos murmurando “como eu sou patético”.

Marcelo sentou-se ao lado do outro na cama e observou o marido permanecer com as mãos no rosto. Ele queria dizer tanta coisa, queria confortá-lo e falar que estava tudo bem cometer erros e que criar filhos não vinha com um manual de instruções, mas no fim só fez um cafuné no cabelo dele e o viu descobrir o rosto e encará-lo com uma expressão séria.

— Desculpa, eu não quis parecer que fiquei com inveja de vocês... É só que, eu tenho tanto receio de não estar criando ele direito e o mais importante, de não estar dando ao Paulo o apoio que ele precisa, que às vezes eu... — Diego soltou outro suspiro profundo e fechou os olhos para apreciar o agrado que Marcelo fazia em seu cabelo.

— Tá tudo bem... No fim deu tudo certo. Amanhã o Paulo vai ficar na casa da Vanessa e nós vamos sair com o pessoal. E o mais importante, ele vai fazer as pazes com os amiguinhos e nós vamos nos divertir um pouco. Todo mundo sai ganhando. — Diego se sentou na cama e segurando o rosto do parceiro com ambas as mãos, lhe deu um beijo longo e apaixonado.  

— Obrigado por sempre me apoiar. Eu te amo. — murmurou o rapaz enquanto se aconchegava ao lado do marido e já começava a mergulhar no sono, mas não antes de ouvir Marcelo responder.

— Idem. — aquela era uma brincadeira particular que Diego não ouvia o outro fazer há algum tempo. Uma palavra tão curta, mas que carregava tanto significado.

Continua... 

Nota da autora:

Começar essa nota pedindo desculpas (pela enésima vez) acho que seria meio chato, porque hiatos acontecem e infelizmente, acredito que vão acontecer de novo ainda este ano. Então, ao invés de me desculpar, eu vou agradecer aqui a todas as pessoas que por estes seis anos (comecei a escrever ela em 2020) em que essa história está em publicação, não desistiram de acompanhar. Muito obrigada pelo apoio.

E um agradecimento especial para jauehdio53 que começou a ler recentemente mas deixou comentários muito gentis – e acredite jauehdio53 foi por causa dos seus comentários que eu criei animo para continuar escrevendo. Agradeço também à RaissaRodrigues226, Lucienerdepaulo e maluesfegh por acompanharem e deixarem comentários.

O plano era postar dois capítulos de uma vez, mas, como vocês que estão lendo este aqui na semana de 08 de Março devem ter percebido, eu não consegui e resolvi postar o que eu tive a chance de terminar, apesar do capítulo seguinte estar quase completo.

Bom, neste capitulo tivemos o desenrolar daquela situação chatinha pela qual Paulo passou, e que vai ter um desfecho nos próximos capítulos. Vimos um pouco de Francisco e Joaquim, Mayara e Letícia e claro, Diego sofrendo por sentir que não é um responsável modelo para o irmãozinho. E Marcelo sendo esse cara incrível que apoiador.

Vou confessar para vocês que as vezes eu penso se realmente vale a pena continuar escrevendo essa história, porque ela não tem plot twists, personagens caricatos, não se passa em algum universo/tempo distante, ela é só sobre um grupo de pessoas comuns vivendo suas vidas comuns. – acredito que nunca vou conseguir publicar ela comercialmente, mas ainda assim, quando eu consigo escrever os capítulos, me sinto bem e feliz!

E por enquanto, isso tem sido o suficiente.

Enfim, mais uma vez muito obrigada por lerem até aqui e espero conseguir lançar o próximo capítulo mais rápido.

Até lá,

Perséfone Tenou.

 

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