Durante
toda aquela semana, Paulo resolveu ficar afastado de Agatha e Luís, por não se
sentir bem em falar com eles. Apesar da conversa que teve há algumas noites com
Diego, o menino ainda se sentia mal por ter, mesmo que sem querer, chateado as
outras duas crianças falando sobre assuntos que poderiam ser dolorosos.
No
intervalo das aulas, ele se escondeu no banheiro dos meninos para comer o
lanche e na hora que Mayara foi buscá-lo, saiu correndo antes que Agatha
pudesse lhe falar algo. Paulo sabia que o que estava fazendo não era legal e
que talvez isso estivesse tornando tudo ainda pior, mas ele não conseguia
encarar os dois amigos naquele momento.
E
quando chegou a sexta-feira e Vanessa foi buscar a filha, ela percebeu que a
menina parecia meio abatida e tristonha e ao perguntar se havia acontecido algo
na escola, viu Agatha fungar baixinho, como se estivesse tentando controlar o
choro e responder com um “não” quase
inaudível.
—
Tem certeza, querida? Então, porque você parece tão chateada? — demorou alguns
minutos para a garota contar à mãe o que havia acontecido, ou melhor, o que não
havia acontecido, já que Paulo a evitou por todos aqueles dias.
—
Ele não falou comigo ou com o Luís a semana toda! Será que o Paulo não gosta
mais de mim como amiga? — e assim que falou a ultima palavra, a menina se
desmanchou em um choro doloroso e constante, o que fez com que Vanessa
estacionasse em uma vaga próxima da calçada, para poder abraçar a filha.
—
Que isso, meu bem? Ele só deve estar passando por um período ruim. O Paulo é um
bom garoto e vocês sempre se deram bem... O que acha de eu ligar para o Diego e
a Míriam e combinar de vocês três passarem algumas horas juntos amanhã? É
sábado e eu vou estar de folga do salão. — apesar de Vanessa ter feito alguns
planos para sua folga, ela não se importava de abrir mão sem pensar duas vezes,
se isso fizesse a filha sorrir.
A
menina fungou mais um pouco e ergueu os grandes olhos negros e profundos
encarando a mãe, que secou uma lágrima teimosa a qual ainda escorria bochecha
abaixo. E então Vanessa ouviu a garota perguntar em um fio de voz “Você promete?”
—
É claro, amor. Agora não chora mais, ta? Vai dar tudo certo amanhã. — Agatha
concordou com um meneio animado de cabeça e em poucos minutos já estava em seu
estado normal, falante e animada.
***
Joaquim
e Francisco foram buscar as alianças naquela tarde, durante o horário de almoço
do loiro e se fosse por ele, já começaria a usar a sua naquele exato momento,
mas foi convencido pelo namorado a esperar o dia da cerimônia. “Fica mais especial assim”, foi o que
Francisco disse e o outro rapaz acabou aceitando.
Mas,
claro que antes de colocar a jóia de volta na caixinha, ele tirou uma foto
usando o anel no anelar da mão esquerda e enviou por whatsapp para as poucas
amizades que tinha e enquanto abria a loja de sabonetes, ele sentiu o celular
vibrar animado em seu bolso.
Darcy
enviou um monte de figurinhas animadas repletas de corações e bichinhos fofos
pulando, Mayara respondeu com um “Mas que
coisa linda!” enquanto Diego enviou um emoji surpreso seguido de “Ficou muito boa”.
—
O pessoal curtiu a aliança. — informou o loiro, ao mesmo tempo em que entrava
na loja, seguido por Francisco, que o abraçou pela cintura, arrancando um
risinho nervoso e uma repreensão velada, “A
porta é de vidro, alguém pode ver a gente”. Ao que em resposta, o outro
apenas riu e depositou um beijo suave na curva do pescoço do namorado – seu “futuro marido”.
—
E você tem vergonha? Ou medo? — perguntou Francisco enquanto caminhava com o
outro até a pequena copa nos fundos da loja e ouvia o loiro responder com um
quê de divertimento na voz.
—
Você sabe que não, mas eu estou trabalhando... Não quero que alguém vá reclamar
de mim para Lola e Joana. — “Como se elas
fossem se incomodar”, complementou Francisco enquanto sentia Joaquim girar
dentro do seu abraço firme e o encarar nos olhos, ficando nas pontas dos pés
para beijá-lo com carinho e em resposta, enredando os dedos firmes dele naqueles
cabelos loiros e macios.
—
Ainda não acredito que a gente vai casar “De
papel passado” como dizia uma tia minha... — sussurrou Joaquim enquanto
encostava a testa contra o peito morno do namorado e sentia-o abraçá-lo com
gentileza.
—
Você sabe que... Na verdade, nada vai mudar entre a gente, né? Mas agora eu
posso te colocar como meu dependente no plano de saúde! — Declarou Francisco,
cujos lábios estavam a apenas alguns centímetros do cabelo sedoso e claro de
Joaquim. O aroma do shampoo que ele usava invadia suas narinas com brandura,
inebriando-o.
—
Pois é, foi só por isso que eu aceitei. Para entrar pro seu plano de saúde... E
ah é, e também porque eu te amo! — eles trocaram mais alguns beijos
apaixonados, mas Joaquim fez o namorado ir embora antes que as coisas
esquentassem demais.
—
Eu vou aproveitar que a loja está sem movimento e estudar para uma prova do
técnico. Você vem me buscar as seis? — perguntou ao mesmo tempo em que se
apoiava na porta de vidro aberta e via Francisco sair, ao mesmo tempo em que
ouvia o sininho em cima tilintar e para sua surpresa, sentiu um beijo suave ser
depositado no topo da sua cabeça enquanto ouvia o outro murmurar que “Claro, eu venho te buscar as seis, como
sempre. Bom trabalho. Qualquer coisa, me liga”.
Joaquim
viu o namorado sumir na esquina e então, como se estivesse em uma cena daqueles
filmes de romance adolescente, ele se encostou contra a porta fechada da loja e
se deixou escorregar de vagar até o chão, exibindo um sorriso bobo de
apaixonado.
O
casamento deles seria dali exatamente um mês e meio.
***
Marcelo
estava atendendo um paciente na clinica de acupuntura, o homem se queixava de
enxaquecas recorrentes e violentas, mas lhe confessou que após algumas sessões,
vinha sentindo alguma melhora.
—
Certo então, Seu Jeremias, eu já fiz a aplicação, agora o senhor fica aqui em
repouso por uma hora, para o tratamento fazer efeito. Eu vou dar um pulo rápido
ali fora para tomar um café, mas qualquer coisa é só chamar e a Claudia da
recepção vem aqui. — Marcelo observou seu paciente, que exibia uma série de
agulhas especificas para o tratamento, aplicada de forma estratégica e em
pontos vitais do rosto, e ainda assim, o homem conseguiu esboçar um sorriso e
comentar que quando a sessão acabasse ele também iria pegar um gole de café.
Marcelo
se retirou da pequena sala onde estava tratando de Jeremias e rumou para a
copa, mas ao invés de pegar café, ele sacou o celular do bolso de trás da
calça, para checar as mensagens e se espantou ao ver que Diego tinha lhe ligado
algumas vezes, mas ele não viu, pois por estar trabalhando, o aparelho ficava
no silencioso.
Esticou
os olhos para o relógio pendurado acima do armário da copa e ao ver que ainda
tinha tempo, resolveu arriscar ligar para o marido, que talvez não pudesse
atender, se estivesse mostrando uma casa, mas, para sua surpresa, o outro
atendeu no segundo toque.
—
Oi, aconteceu alguma coisa? Ta tudo bem com você? E com o Paulo? — Marcelo não
conseguia evitar se preocupar, afinal, para o outro ter lhe ligado tantas vezes
seguidas, só podia ter acontecido alguma coisa séria.
—
Eu estou bem, tou almoçando aqui com o Raul, ele mandou um oi pra você. — ouviu
então um som de movimento e um pedido murmurado de desculpas e por alguns segundos
tudo ficou em silencio.
—
Me afastei do Raul pra falar com você com calma... — Diego soltou um suspiro
pesado e cansado que pode ser sentido por Marcelo, do outro lado da linha.
—
Você perguntou se o Paulo estava bem, então... A Vanessa me mandou um áudio me
contando que ele não conversou com a Agatha ou o Luís a semana toda, mesmo
depois de eu ter falado com ele. Então ela perguntou se eu deixava ele ir posar
na casa dela esse final de semana... Eu não vejo problema, mas preciso ver se
ele vai querer... Desculpa ter te ligado tantas vezes, você tá trabalhando,
deve até estar tratando um paciente agora e... Eu aqui criando tempestade em um
copo d’água. — Marcelo ouviu outro suspiro pesado do outro lado da linha e
pensou em um milhão de possíveis respostas, mas no fim optou pela mais simples.
—
Tá tudo bem. Eu estou aqui pra você. — ouviu um risinho nervoso e engasgado
soar pelo telefone, seguido de um suspiro fundo e exausto. Mas aquilo indicava
que Diego estava mais calmo.
—
Desculpa mesmo ser tão... Dependente, inconveniente... Você escolhe! Mas é que
eu não sei o que fazer pelo Paulo. Ele é uma ótima criança. Mas é tão retraído
emocionalmente que às vezes... Eu nem sei o que fazer! — Enquanto segurava o
celular próximo da orelha, Marcelo esboçou um pequeno sorriso compreensivo.
—
Quando a gente chegar em casa, vamos conversar com ele, juntos. Como você
disse, ele é uma boa criança, mas com tudo o que ele passou antes de vir morar
conosco, é compreensível esse comportamento meio preservador. Porque na
cabecinha dele, essa coisa de se afastar dos amigos é uma forma de impedir que
as coisas fiquem piores. — Diego deu outro riso curto e se desculpou novamente
por incomodar Marcelo durante o trabalho.
—
Não se preocupe com isso. O meu paciente está bem e eu podia retornar a
ligação, então não houve problema nenhum. A gente se vê a noite, ta? Te amo. — em
resposta ouviu Diego dizer “Até a noite
então. Também te amo”. Mas, apesar de já terem desligado, Marcelo ainda
ficou quase um minuto encarando a tela escura do celular e pensando em como
lidariam com aquela situação envolvendo Paulo.
Ultimamente
eles vinham conversando bastante sobre a saúde mental do menino. Diego queria
encontrar um psicólogo infantil para levá-lo, mas não queria assustar o
irmãozinho. E ao mesmo tempo, ele relatava para Marcelo pequenos comportamentos
que vinha observando no garoto, nada preocupante, mas que pareciam ser traços
de traumas ocultos.
Claro,
muito daquela bagagem emocional distorcida foi causada pelo pai do menino.
Marcelo nunca conheceu Wando, nem mesmo chegou a ver uma foto sequer do cara,
mas pelo que Diego lhe contava, somado aos fragmentos que Paulo as vezes
deixava escapar, o homem não era uma boa pessoa.
Já
quanto a mãe biológica de Diego (durante muitos anos ele fez questão de se
referir a ela desta forma), Beatriz, Marcelo tinha um pouco mais de
conhecimento. Sabia pela única foto que Paulo trouxe na bagagem, que ela era
uma mulher negra retinta, alta e magra e com uma expressão de sofrimento
constante no rosto, mas também, casada com um traste como o padrasto de
Diego...
Quanto
ao pai, Diego falava dele muito pouco. Mas sempre que comentava, era com
carinho e reverencia, pois o pai do rapaz faleceu quando ele ainda era criança,
dois anos mais velho do que Paulo. O homem foi atropelado por um carro enquanto
voltava do trabalho.
—
Ei, Terra para Marcelo... — se surpreendeu ao encontrar Claudia, a
recepcionista da clinica, parada em pé ao seu lado o olhando com um pequeno
sorriso divertido nos lábios.
—
Algum problema? — ele perguntou enquanto via a moça se servir de um copo de
café, no qual ela deu uma série de pequenos sopros para esfriar.
—
Talvez, porque já faz quase uma hora que o seu paciente está lá. — informando
isso, a moça retornou para a recepção, ainda exibindo aquele sorrisinho de quem
sabia de algo e não ia contar. E ao conferir o relógio da copa, Marcelo se deu
conta de que ela estava certa e com isso, ele correu de volta para a saleta
onde Jeremias estava!
***
Joaquim
havia acabado de vender um kit de banho infantil para uma jovem grávida que lhe
disse estar montando o enxoval do bebê. Isso foi uma meia hora depois que
Francisco foi embora e desde então, ele não tinha conseguido estudar nada para
a prova daquela noite.
Equilibrar
trabalho e o curso técnico (e mais os preparativos para o casamento) estava se
tornando bastante exaustivo, mas ele sabia que não devia abrir mão de nenhuma
das três coisas. Pelo menos já tinham ido buscar as alianças, o cartório estava
reservado e tinham conseguido alugar um salão e um buffet para a recepção. Esses
dois últimos foram parcelados a perder de vista no cartão, mas valeria a pena.
Agora
só faltava arrumar quatro testemunhas ( que
chamava na sua cabeça
de “padrinhos e madrinhas” e cujos
nomes eles já haviam escolhido) e o bolo. Joaquim disse que não queria nada
extravagante, e como convidariam poucas pessoas, o salão de porte médio que
alugaram iria servir.
Ele
ia pedir o contato da confeitaria em que Mayara encomendou o bolo de bodas das
mães, apesar de pelo que tinha lido na internet, encomendar um bolo de
casamento, por mais simples que fosse, com pouco mais de um mês antes da data,
era algo arriscado.
Estava
entretido pensando nas possibilidades e ao mesmo tempo rindo internamente por
até então ter se recusado com tanta convicção a aceitar o pedido de Francisco
(“e agora olha só quem está todo bobo com
os preparativos!” pensou) que levou um susto quando o celular começou a
vibrar em cima da bancada de vidro, fazendo um barulho e tanto.
Quando
conferiu o identificador de chamadas, abriu um sorriso jovial que iluminou seu
rosto.
—
Alô? — e assim que atendeu, foi inundado pela voz efusiva de Darcy.
—
Oi fofinho! Tudo bem? — depois de um breve dialogo básico, a moça informou a
ele o motivo da ligação.
—
Sabe o que é? É que eu queria ir ao cinema esse final de semana, mas estou sem
companhia, daí pensei que talvez você tivesse interesse. E daí você podia chamar
aquelas duas meninas fofas com que a gente saiu pra beber outro dia e aquele
seu casal de amigos lindos. E claro, o Fran! Ele tem cuidado bem de você,
fofinho? — Darcy era como uma onda marítima emocional e Joaquim se sentia
afogado em satisfação quando falava com ela.
—
Está sim. Ele é um ótimo namorado. — respondeu enquanto sorria de forma
inconsciente ao se lembrar dos momentos que passou com Francisco algumas horas
atrás.
—
Então eu não vou precisar dar um beliscão nele, que bom. Ha ha. — o riso dela
reverberou pela ligação e preencheu o espaço solitário da loja, fazendo o loiro
pensar em como Darcy conseguia irradiar vida apenas por existir.
—
A gente pode ir jantar também, antes ou depois do cinema, vocês decidem! Ai,
agora eu tenho que ir, vou entrar em reunião com uns acionistas gringos... Me
deseje sorte! — ao que o rapaz respondeu “Vai
dar tudo certo” e “me manda os
detalhes por whats depois”.
Darcy
se despediu lhe mandando um beijo e alguns segundos após a ligação ter sido
encerrada, o loiro ainda podia ouvir o eco da voz dela em sua mente.
***
Ao
chegar em casa, Marcelo encontrou o marido conversando com Paulo e viu que
apesar de Diego estar usando um tom de voz tranquilo e gentil, o menino estava
encolhido no sofá enquanto exibia uma
expressão contraída e magoada.
— ...Entende? Você não precisa ficar sem falar
com eles... — Marcelo se aproximou e colocou a mão sobre o ombro esquerdo do
marido, atraindo assim a atenção de Diego e de Paulo.
—
Oi, você voltou, eu não percebi... A gente tava conversando, né Paulo? — o
menino respondeu com um meneio de cabeça curto, enquanto ainda exibia uma
expressão emburrada no rosto.
—
Eu percebi. O que acha de você ir tomar um banho enquanto eu termino de
conversar com ele aqui? — por alguns segundos, Diego encarou o marido com um
pouco de mágoa, pois sentiu como se sua autoridade de responsável pelo
irmãozinho estivesse sendo arrancada dele, mas após uma troca significativa de
olhares, ele compreendeu que Marcelo só estava querendo ajudar.
—
Certo, eu tou precisando mesmo de um banho... Daí quando eu voltar te conto
sobre um convite que o Joaquim mandou pra gente sair juntos amanhã. — Diego fez
um cafuné no cabelo de Paulo e em resposta o menino esboçou um pequeno sorriso.
Marcelo
viu Diego rumar para o pequeno corredor que levava ao banheiro e após ouvir a
posta fechar, ele se sentou ao lado de Paulo e começou a conversar com o
menino, perguntando porque ele vinha evitando falar com os amiguinhos durante
aquela semana.
—
Ah, eu achei que assim não ia chatear eles... Que nem aconteceu outro dia...
Mas daí agora o Diego me disse que a mãe da Agatha falou que ela ficou triste,
porque eu não falei com ela... Eu não queria deixar a Agatha triste! Eu
queria... — o menino suspirou fundo e jogou a cabeça para trás, repousando-a
nas costas do sofá.
—
Sabe, às vezes a gente acaba chateando alguém sem nem saber, isso acontece...
Mas o mais importante é entender que não podemos prever o que vai ou não deixar
alguém triste, entende? O Diego também me disse que a Vanessa te convidou para
pousar lá na casa dela, com a Agatha e o Luís. Você quer ir? — os olhos do
menino se arregalaram de surpresa, o que deixou claro que Diego não havia
chegado até essa parte da conversa e em resposta, o garoto meneou a cabeça de
forma positiva com entusiasmo, exibindo um largo sorriso de felicidade.
—
Eu quero sim! Eu posso? — Marcelo respondeu que sim, claro que podia e viu a
expressão do menino mudar drasticamente daquela que encontrou quando havia
chegado em casa.
Em
seguida, Paulo saltou do sofá, se preparando para correr até o quarto e pegar
alguma coisa que queria mostrar, mas Marcelo o impediu segurando-o com
delicadeza pelo pulso e fazendo o menino encará-lo.
—
Antes de você sair daqui Paulo, eu queria falar uma coisa. O Diego só estava
tentando te ensinar como devemos tratar os nossos amigos. Ele não estava “sendo chato”, você entende isso, certo?
— Paulo concordou com um meneio curto de cabeça e após ter seu pulso liberado,
saiu correndo para o quarto.
***
Naquele
fim de tarde, Letícia passou na casa de Diego e Marcelo para buscar a namorada.
Mayara ia posar na sua casa e elas pretendiam fazer uma noite de cinema, mas
ela aceitou o convite de Joaquim para
irem ao cinema sem nem hesitar.
—
Vai ser bom sair com o pessoal de novo. — concordou Letícia, enquanto parava em
um sinal vermelho e olhava de forma rápida para a namorada, que soltou um
suspiro cansado.
—
Dia puxado hoje? — Mayara deu um risinho exausto e puxou um punhado grande de
cabelo para o lado, começando a trançá-lo de forma distraída.
—
Um pouco... Quem acha que tomar conta de uma criança é um trabalho fácil, está
muito enganado. O Paulo é um doce, mas ainda assim, tem seus momentos
complicados, como qualquer criança. — Letícia estava hipnotizada pela forma
natural com que a outra fazia aquela trança com os cabelos, a ponto de não ter
notado a mudança de cor do sinaleiro, até que o carro atrás buzinou irritado.
—
E como foi o seu dia lá no escritório? — Mayara perguntou enquanto olhava para
a namorada e a via suspirar com desanimo antes de responder.
—
Ah, o mesmo de sempre. Trabalhar na parte de marketing da empresa não é nada
interessante... Mas é aquela coisa, é um emprego e paga as minhas contas...
Mas, juro que não era o que eu sonhava fazer quando me formei na faculdade. — Letícia
sentiu a mão de Mayara segurar a sua por alguns segundos e sorriu, o contato
morno da pele macia da namorada contra
sua lhe dava animo para continuar.
***
Quando
Marcelo entrou no quarto, encontrou Diego trocando de roupa para dormir.
Durante o jantar o outro quase não falou, com exceção do momento em que Paulo
perguntou se poderia pousar na casa de Agatha no dia seguinte. E após fechar a
porta, Marcelo se aproximou do marido e o abraçou pela cintura, sentindo-o
suspirar fundo de forma frustrada e exausta.
—
Você ta bem? — perguntou enquanto sentia Diego deitar a cabeça para trás e
encostá-la em seu ombro.
—
Na verdade, não muito. Eu sinto que não estou sendo muito bom em cuidar do
Paulo... É como se eu estivesse fazendo tudo errado! — Diego se desvencilhou do
abraço e se jogou sobre a cama, soltando um suspiro pesado e em seguida lançado
um olhar magoado para o marido.
—
Antes de eu entrar no banho, escutei vocês conversando. Como você levou o
assunto de uma forma bem mais tranquila que eu e o jeito que ele reagiu... Às
vezes eu acho que você tem mais jeito com ele do que eu. — assim que falou,
Diego deu um risinho triste e cobriu o rosto com as mãos murmurando “como eu sou patético”.
Marcelo
sentou-se ao lado do outro na cama e observou o marido permanecer com as mãos
no rosto. Ele queria dizer tanta coisa, queria confortá-lo e falar que estava
tudo bem cometer erros e que criar filhos não vinha com um manual de
instruções, mas no fim só fez um cafuné no cabelo dele e o viu descobrir o
rosto e encará-lo com uma expressão séria.
—
Desculpa, eu não quis parecer que fiquei com inveja de vocês... É só que, eu tenho
tanto receio de não estar criando ele direito e o mais importante, de não estar
dando ao Paulo o apoio que ele precisa, que às vezes eu... — Diego soltou outro
suspiro profundo e fechou os olhos para apreciar o agrado que Marcelo fazia em
seu cabelo.
—
Tá tudo bem... No fim deu tudo certo. Amanhã o Paulo vai ficar na casa da
Vanessa e nós vamos sair com o pessoal. E o mais importante, ele vai fazer as
pazes com os amiguinhos e nós vamos nos divertir um pouco. Todo mundo sai
ganhando. — Diego se sentou na cama e segurando o rosto do parceiro com ambas
as mãos, lhe deu um beijo longo e apaixonado.
—
Obrigado por sempre me apoiar. Eu te amo. — murmurou o rapaz enquanto se
aconchegava ao lado do marido e já começava a mergulhar no sono, mas não antes
de ouvir Marcelo responder.
—
Idem. — aquela era uma brincadeira particular que Diego não ouvia o outro fazer
há algum tempo. Uma palavra tão curta, mas que carregava tanto significado.
Continua...
Nota
da autora:
Começar
essa nota pedindo desculpas (pela enésima vez) acho que seria meio chato,
porque hiatos acontecem e infelizmente, acredito que vão acontecer de novo
ainda este ano. Então, ao invés de me desculpar, eu vou agradecer aqui a todas
as pessoas que por estes seis anos (comecei a escrever ela em 2020) em que essa
história está em publicação, não desistiram de acompanhar. Muito obrigada pelo
apoio.
E
um agradecimento especial para jauehdio53 que começou a ler recentemente mas
deixou comentários muito gentis – e acredite jauehdio53 foi por causa dos seus
comentários que eu criei animo para continuar escrevendo. Agradeço também à RaissaRodrigues226,
Lucienerdepaulo e maluesfegh por acompanharem e deixarem comentários.
O
plano era postar dois capítulos de uma vez, mas, como vocês que estão lendo
este aqui na semana de 08 de Março devem ter percebido, eu não consegui e
resolvi postar o que eu tive a chance de terminar, apesar do capítulo seguinte
estar quase completo.
Bom,
neste capitulo tivemos o desenrolar daquela situação chatinha pela qual Paulo passou,
e que vai ter um desfecho nos próximos capítulos. Vimos um pouco de Francisco e
Joaquim, Mayara e Letícia e claro, Diego sofrendo por sentir que não é um
responsável modelo para o irmãozinho. E Marcelo sendo esse cara incrível que
apoiador.
Vou
confessar para vocês que as vezes eu penso se realmente vale a pena continuar
escrevendo essa história, porque ela não tem plot twists, personagens
caricatos, não se passa em algum universo/tempo distante, ela é só sobre um
grupo de pessoas comuns vivendo suas vidas comuns. – acredito que nunca vou
conseguir publicar ela comercialmente, mas ainda assim, quando eu consigo
escrever os capítulos, me sinto bem e feliz!
E
por enquanto, isso tem sido o suficiente.
Enfim,
mais uma vez muito obrigada por lerem até aqui e espero conseguir lançar o
próximo capítulo mais rápido.
Até
lá,
Perséfone
Tenou.
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